Ler: uma forma de amor

Sempre amei ler, desde que me entendo por gente. Cheguei a ser alvo de intensa gozação da família, uma vez que devorava verbetes de dicionários e enciclopédias e, quando nada mais estava ao meu alcance, entravam na minha obsessão por engolir as palavras os livros de culinária de minha mãe e até as famigeradas bulas de remédio da minha avó, com aquelas letrinhas minúsculas!

E quando, enfim, atendia aos chamados urgentes para que “largasse imediatamente o livro” e viesse me juntar aos outros à mesa, sentia, de olhos baixos, o olhar severo de meu pai, pela comida esfriando... Porém, ao mesmo tempo, por baixo dos cílios, conseguia entrever seu quase sorriso e adivinhar seu pensamento: “igualzinha a mim quando criança...”

E, quando tinha tempo – e, para nós, sempre tinha -, levava minhas irmãs e a mim para o escritório, forrado de estantes, com livros-relíquia, encadernados em couro e filetes de ouro, verdadeiras preciosidades, que ia comprando aos poucos, dentro do que lhe permitiam as imensas despesas com as quatro filhas e a esposa. E nos contava um pouco da história de um, e de outro, e de mais um ainda... e a mágica acontecia.

De repente, eu não era mais ouvinte, mas participante, coautora, personagem mesmo das aventuras que ele narrava, com sua voz firme e múltipla de intenções e sonoridades, encarnando a criança, o herói, o bandido, a velhinha, numa infindável sucessão de imagens mirabolantes que se desenhavam à minha frente, à medida que a história avançava.

Naqueles momentos, ainda pequena, percebi a felicidade contida em decifrar, pouco a pouco, as mensagens desse mundo que se descortinava ao meu redor, e senti que esse era um caminho sem volta: uma rota que me levaria a desvendar mistérios insondáveis, que, naquela época distante, mal podia pressentir até que belezas me levariam.

É dessa forma que meu pai demonstrava seu amor. E é assim também que fiz com meus filhos, para quem, ainda na barriga, lia e cantava todos os dias. E é o que, espero ardentemente, meus filhos façam pelos seus filhos, e que essa magia se perpetue eternamente, não somente de pai para filho, mas de irmão para irmão, de amigo para amigo, de professor para aluno, de aluno para professor, de um para todos, de todos para todos.

Professora Nilde Maria Rotolo Negrini

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